Meu livro TROCADILHO, vencedor do Prêmio Saraiva de Literatura, já está em pré-venda pelo site da Editora;
http://www.saraiva.com.br/trocadilho-9036216.html
O lançamento será no dia 26/09, a partir das 15h, na Megastore Saraiva do Shopping Pátio Paulista.
Espero vocês, amigos de Sampa!
quinta-feira, setembro 03, 2015
terça-feira, agosto 25, 2015
Minha página no facebook
Decidi que já era hora de criar uma página no facebook, hoje nasceu:
"AS LETRINHAS MIÚDAS DE JACQUELINE SALGADO"
https://www.facebook.com/letrinhasdejacquelinesalgado
Conto com os amigos e leitores e com amigos-leitores para divulgação.
Literatura é isso, meus caros!
Trabalho de formiguinha...
"AS LETRINHAS MIÚDAS DE JACQUELINE SALGADO"
https://www.facebook.com/letrinhasdejacquelinesalgado
Conto com os amigos e leitores e com amigos-leitores para divulgação.
Literatura é isso, meus caros!
Trabalho de formiguinha...
Encontro com alunos do CASB em Viçosa
Nada mais gostoso pra um escritor que esse contato com as crianças!
Dessa vez, fui recebida com muito carinho pelos alunos do CASB, no teatro Hervé Cordovil na minha terrinha natal, Viçosa, MG.
Gratidão ao Secretário de Cultura Geraldo Luis Andrade, grande em todos os sentidos!
terça-feira, novembro 18, 2014
I PRÊMIO SARAIVA DE LITERATURA
Um dos momentos mais felizes da minha carreira, quiçá da minha vida!
Vencer um prêmio dessa grandeza me trouxe sensações inexplicáveis, posso dizer que levei um baita susto quando o Zeca Camargo disse meu nome. Ao meu lado, dois grandes escritores que também se tornaram amigos: o Christian, de Porto Alegre, e a Valquíria, de Jundiaí.
Agradeço mais uma vez à Editora Saraiva pela oportunidade de ser tão feliz, ao lado de pessoas tão especiais! Que venham nossos livros, que venham nossos leitores, que venham nossos voos cada vez mais altos!
Conheça os vencedores do 1º Prêmio Saraiva!
Foram mais de 4 mil inscritos, em quatro categorias. Chegamos a 12 finalistas. Agora, conheça aqueles que levaram o grande prêmio de R$ 20 mil!
Literatura Infantil – Poesia
1º lugar: Jacqueline Lopes Salgado Soares (Bauru/SP) (EU!!!)
2º lugar: Christian Nectoux David (Porto Alegre/RS)
3º lugar: Valquíria Gesqui Malagoli (Jundiaí/SP)
Literatura Juvenil – Crônica
1º lugar: Vanessa Luiza Martinelli Levandowski (Joinville/SC)
2º lugar: Elika Takimoto (Rio de Janeiro/RJ)
3º lugar: Carlos Augusto de Almeida (Três Rios/RJ)
Literatura Adulta – Romance
1º lugar: Andreia Fernandes Soares Leite (Rio de Janeiro/RJ)
2º lugar: Mauro Vieira Maciel (Florianópolis/SC)
3º lugar: Evaldo Balbino da Silva (Belo Horizonte/MG)
Música
1º lugar: Zé Vito (Rio de Janeiro/RJ) – Álbum: Já Carregou
2º lugar: Adiel Luna (Recife/PE) – Álbum: Adiel Luna e Coco Camará
3º lugar: Rapha Moraes (Curitiba/PR) – Álbum: La Buena Onda
quarta-feira, setembro 17, 2014
Se eu fosse um poema
Se
eu fosse um poema,
deixar-me-ia
sucumbir à liberdade dos versos
ou
à tentadora armadilha das rimas.
Enxertos
de prosa seriam bem vindos
sintaxes
distorcidas, talvez.
Seria
assindético ou polissindético
e
nadaria de braçada no caos das conjunções.
Se
eu fosse um poema,
seria
uma medusa a ostentar
versos
e serpentes
e
petrificaria
os
leitores mais desavisados.
Se
eu fosse um poema,
gostaria
de caber na ponta de um alfinete
ao
mesmo tempo em que, sentado na lua,
eu
pudesse balançar os pés no universo.
Se
eu fosse um poema,
seria
concreto
sonoro
pulsante.
Seria
calmo,
seria
inquieto,
como
um paradoxo no espelho.
Se
eu fosse um poema,
seria
uma ode de Píndaro,
um
soneto de Petrarca
ou
um haicai de Bashô.
Seria
todo o consolo metalinguístico
infinito,
silencioso,
que
abre fissuras nas horas.
Simulacro
de sentido.
Se
eu fosse um poema,
seria
desembaraço,
seria
coloquial.
Seria
pintado,
mimeografado,
fotocopiado
articulado
e reticente.
Se
eu fosse um poema,
abusaria
das anáforas
verteria
aliteração.
Seria
cratílico,
idílico,
itálico,
etílico,
hiperbólico.
Se
eu fosse um poema,
não
me importaria em ser jogado ao muro
estampado
em faixas de tecido ralo,
tapumes
disformes
ou
impresso na terceira margem do tempo.
Se
eu fosse um poema,
esfregar-me-ia
nas folhas em branco
até
que o sêmen do lirismo penetrasse
o
invólucro do vazio.
Se
eu fosse um poema,
sobreviveria
aos que ignoram poesia.
terça-feira, abril 22, 2014
Tio Francisco no "Leitura com Pipoca"
Veja o que rolou no Zoo de Americana/SP, durante o lançamento do meu livro Tio Francisco. Foi uma manhã deliciosa de bate-papo com os leitores, onde pude contar um pouco da minha trajetória, meus sonhos e mineirices! Obrigada a todos pelo carinho!
Fotos do lançamento do meu livro Tio Francisco
Fotos do lançamento do meu livro Tio Francisco
Lançamento "Tio Francisco"
(Matéria da Editora Adonis sobre o lançamento do meu livro: Tio Francisco)
Adonis publica livro vencedor do 3º Prêmio Agostinho de Cultura neste final de semana
Se lidar com
ausência é tarefa difícil para os adultos imagine para os pequenos. Como forma
de explicar às crianças para aonde foi uma certa pessoa depois que ela não está
mais entre nós, que a mineira Jacqueline Salgado criou a história que foi parar
nas páginas do livro Tio
Francisco, vencedor da categoria Leitor iniciante do 3º Prêmio
Agostinho de Cultura. A obra tem lançamento no próximo domingo, 30 de março,
das 10h às 12h, no Quiosque Gostinho de Leitura (Zoo de
Americana).
A publicação da
Adonis conta a história de Tio Francisco, um velhinho "gente boa" que adora
criar novos inventos com sucatas. Um dia o personagem, que dá título ao livro,
cria uma nova engenhoca - uma tal geladeira - e dentro dela faz uma viagem
encantada.
A história
autobiográfica foi a forma como Jacqueline encontrou para lidar com a perda de
seu tio Francisco. "Quando o verdadeiro tio Francisco morreu inventei para as
outras crianças e para sua neta, que ele havia partido para uma cidade
encantada, aquela que ele havia construído no fundo do seu esconderijo das
sucatas, assim como Paulo (ilustrador) retratou no livro", explica a mineira,
que acrescenta, "Sempre lancei mão de metáforas para abrandar a dor, incumbência
poética que a vida me deu", conclui Jacqueline.
Respeitando as
características reais do tio da escritora, Paulo R. Masserani - que assina as
ilustrações das 24 páginas da publicação - criou uma espécie de papai-noel de
férias para dar vida ao personagem do livro infantil. "Um papai-noel em férias
foi como encontrei para explicar para o ilustrador como era meu tio. Por
diversas vezes tio Francisco foi convidado a trabalhar como o bom velhinho, mas
sempre se recusava, dizia que as crianças o preferiam como Tio Francisco",
diverte-se a escritora.
Premiado pela
terceira edição do concurso que revela os novos talentos do selo Adonis -
Prêmio Agostinho de Cultura - Tio Francisco instiga o leitor a
olhar para os "pedacinhos esquecidos do mundo", para a simplicidade e para as
diversas utilidades de objetos que foram colocados fora de sua função habitual,
"é como desdobrar coisas em poesia" como prefere sintetizar a escritora.
quinta-feira, fevereiro 13, 2014
Resumo dos relatos autobiográficos
Tive 5 infâncias, uma
para cada casa que morei, por isso escrevi 5 relatos autobiográficos, sendo que
o primeiro deles, o “Relatos autobiográficos: a primeira infância”, tornou-se
famoso por ter sido publicado no Caderno do Aluno I de português do 6° ano, o
livro didático usado pelas escolas
públicas do estado de SP.
Muitos alunos me
escrevem pedindo um resumo desses meus relatos, para entenderem um pouco mais
do desenrolar da minha infância e recolher elementos que caracterizam um relato
autobiográfico. Aqui está um resuminho então, “relatos curtos de Jacqueline
Salgado”!
Primeira
Infância:
A casa em que nasci ficava no centro de Viçosa, MG, bem
próxima aos trilhos do trem (bastava atravessar a rua) e nessa casa eu vivi até
os 4 anos. Foi lá que realizei minha “primeira fuga”, passando por entre os
balaústres da varanda. A minha prima Zizi ajudava a tomar conta de mim, de tão
levada que eu era! Foi lá também que tive uma babá chamada Lúcia, ela tinha o
estranho hábito de espiar os defuntos no necrotério, e me levava junto com ela,
então eu via gente morta de tudo que era jeito, mas eu não tinha medo porque
não entendia nada. Nessa época eu também gostava muito de água, e quando fomos
para Pirapora ver o rio São Francisco, fugi de novo e fui parar num poço de
água de chuva, pensando que era o rio!
Segunda
Infância:
Nessa casa eu fui muito livre e feliz! Ficava numa
espécie de fazenda do governo federal, era a sede da antiga FUNABEM, onde meu
pai trabalhava. A casa ficava de frente para um estábulo onde viviam meus amigos
Paraná e Paraíso, um boi e um cavalo bem mansos, que me acordavam de manhã,
fazendo barulhos na minha janela, assim como meu avô, que imitava um galo para
me acordar. Ao lado da casa ficava um belo lago, cercado de plantas aquáticas,
com muitos patos e marrecos selvagens e outras aves do brejo, além do tantão de
sapos e rãs que faziam um barulho gostoso a noite toda. Aos fundos dessa casa
passava o rio Turvo, onde meu pai e seus amigos pescavam, o nosso quintal era
enorme, parecia não ter fim, assim como minha liberdade!
Terceira
infância:
O bairro se chamava Silvestre, vivemos lá por cerca de 1
ano numa casinha antiga que pertencia ao meu avô. Vovô e vovó moravam ao lado,
numa casa maior e sempre cheia de gente, por isso sempre tinha coisa gostosa
para se comer, o dia inteiro a gente sentia o cheirinho dos doces, dos bolos e
de todas as delícias que a vovó Julieta fazia em seu fogão a lenha! No quintal
da nossa casa morava um pé de maçãs enorme, que dava frutos o ano inteiro,
coisa rara na nossa região! Eu tinha 2 animais de estimação, o coelho Joca e a
cabrita Boneca. Brincava o dia todo com meus primos Tulinho, Titito e Fofinho,
seja na rua ou no quintal da casa da tia Zélia, a mãe deles. Íamos também à
cachoeira, ao goiabal, ao pontilhão... Eram muitos os lugares divertidos de
Silvestre!
Quarta
Infância:
Tivemos que nos mudar para o centro da cidade novamente,
pois estava ficando difícil para eu ter que pegar o ônibus que me levava à
cidade e depois seguir a pé até a escola. Era muito cansativo. Fomos, então,
morar perto da casa dos meus outros avós, os pais do meu pai, na mesma rua onde
morei na primeira infância, porém mais acima. Era um sobrado bem antigo, muito
bonito e bem conservado, eu me sentia bem naquela casa, assim como nas outras.
Ali eu tive uma tartaruguinha, na verdade um cágado de estimação, a “Tadinha”,
que acabou devorada por algum gato ou gambá sem coração. Nessa casa também nós
ganhamos nossa primeira piscina de plástico! Mil litros d’água para mim era o
mesmo que um oceano inteiro! Em dezembro 1983, minha irmã e eu tivemos nosso maior
natal, ganhamos cada uma, boneca, o berço da boneca e o carrinho pra passear
com ela. Ali também nós começamos a sonhar com nossa primeira casa própria, que
logo se tornou realidade!
Quinta
Infância:
Enfim, chegamos à quinta infância, à quinta casa! Nossa primeira
casa própria, comprada com muito esforço. Era um apartamento duplex, que ficava
no térreo de um pequeno prédio, então nós tínhamos um quintal só nosso, o que
fazia o apartamento ter cara de casa. Isso era muito bom para as novas
brincadeiras que eu inventava no barranco de terra. Mais uma vez os trilhos do
trem estavam perto de mim, como na casa em que nasci, mas nessa casa eles
passavam ainda mais perto, dava pra sentir o chão tremer quando o trem de ferro
cortava a cidade. Eu adorava! Nessa casa eu tive muitos bichos de estimação,
verdadeiros amigos que levo comigo na lembrança e ainda choro por eles, os cães:
Xuxa, Cherry, Xuxete, Júpiter e Löwe; os gatos: Nina, Tigrinho e Roreves; o
coelho Joca II e a galinha Pitizinha, que nasceu nas minhas mãos e passou a
vida pensando que eu era sua mãe! Meu irmão Renan também nasceu nessa casa, e
está lá até hoje!
Bom, isso é só um
resumo do resumo do resumo! Até a terceira infância vocês podem ler aqui mesmo
no meu blog, a quarta eu envio por e-mail para quem quiser, e a última só
esperando o meu livrinho de relatos sair, se não perde a graça, né?
Abraço a todos,
obrigada pela leitura e bom trabalho na escola!
Jacqueline Salgado com 1 ano de idade!
quarta-feira, novembro 13, 2013
Fogão à lenha
Cresci observando vovó na lida com o fogão à lenha, na velha casa do distrito de Silvestre.
Era dele que vinha quase tudo de que precisava: o alimento, o torresmo, os doces de tacho, as fornadas de broa e tareco, a prosa, as histórias de assombração, o calor que aquecia minhas mãos nas noites frias de Viçosa.
Às vezes o frio era tanto, que mal o sol amoitava na cacunda do morro, mamãe já me vestia de flanela e meia de tricô, eu puxava um banquinho e subia com ele à taipa do fogão. Enquanto vovô ouvia seus caipiras na vitrolinha e aguardava a noite apiar, eu esticava as mãos miúdas, chegava os pés no calor da brasa pra “quentá fogo” e depois voltava pra casa ao lado pra dormir aquecida por dentro e por fora. O cheirinho da fumaça dos fogões se apagando subia pelas chaminés de Silvestre, entrava nos sonhos e na memória da gente, nada tira esse cheiro de dentro de mim.
Quando vou à casa dos meus pais, o que mais gosto de ver é o fogo atiçado na lenha.
Pai pega a madeira e os galhos secos de fogo fácil, mãe “chama a binga” na lenha e a brasa chamusca, incandesce e depois virá uma pequena fogueira malocada na fenda de barro.
E ali eu fico por horas, sentindo a mescla leve do cheiro da fumaça, do café, do feijão, do toucinho e da simplicidade, que é a essência da construção de qualquer menino criado às voltas com um fogão à lenha.
terça-feira, outubro 08, 2013
O Devedor de Promessas
Jacqueline Salgado
Conta-se
que Uberlândia é a cidade que mais promessas deve aos santos. Tudo graças a um
benfeitor de alma simples, que era procurado pelos inválidos das redondezas
para pagar as promessas em seu lugar.
Foi
por volta de 1930 que apareceu por lá esse sitiante de nome Chico Sabino, que
vivia bem próximo à cidade. Ora meio abobado, ora certeiro, Seu Chico tinha
duas paixões na vida: lavoura e fé! Enquanto havia sol no teto, lavorava,
quando a noite apontava, escaldava-se na bacia de alumínio, mandava um cumê pra dentro e lá estava ele, às
voltas com a igreja do bairro.
Todos
lhe tinham muita admiração e respeito. Ajudava nas missas, nas quermesses,
doava parte do que produzia, às duras penas, para o orfanato da paróquia,
muitas foram as contribuições de Seu Chico Sabino. Mas talvez nenhuma lhe dera
tanta fama quanto a de “pagador de promessas alheias”.
Foi
numa véspera de festejo religioso que a comunidade se juntou para seguir a pé
os 40 quilômetros, da cidade até o distrito de Santa Maria, atual Miraporanga,
onde fica a Capela de Nossa Senhora do Rosário. Naquele ano o padre prometera
festa das boas! Era a “Festa do Rosário” mais aguardada da região. Pagadores de
promessas se juntaram ao Seu Chico pra aguardar o início da peregrinação, que
duraria a noite toda e levaria muita gente a sangrar seus pés em nome da fé.
Com pena dos idosos, dos inválidos, das crianças, gestantes e deficientes, Seu
Chico se ofereceu para pagar por eles as promessas feitas à santa, e daquele
ano em diante sua fama se espalhara por toda Uberlândia e cidades vizinhas,
onde ficara conhecido por um homem santo, generoso e de fé extremada.
Muitos
não entendiam como um senhor, já de certa idade, aguentava firme e forte o
longo trajeto da cidade até a capela, e entendiam menos ainda, como alguém
conseguia percorrer os 40 km com feijão dentro dos sapatos? Isso mesmo! Seu
Chico e alguns romeiros mais radicais colocavam feijões dentro dos sapatos para
que a caminhada se tornasse ainda mais dura e lhes vale-se uma chegada mais
penitente e livre de qualquer promessa.
Eis que chegou, então, o dia da
caminhada. Pouco antes de saírem, o padre rezou uma missa aos romeiros e lhes
ofereceu água e pão, e assim que o sol amoitou no horizonte do cerrado, os fieis
pegaram a estrada.
O caminho era de chão batido, com
muitos pedregulhos e fendas, os perigos não eram poucos: buracos escondidos
pela escuridão da noite, abismos na barranqueira, animais selvagens, porém o
mais difícil dessa empreitada ficava por conta dos feijões que alguns
carregavam nos sapatos. Aos 83 anos, Seu Chico Sabino jamais deixara de colocar
os caroços. Era ele quem liderava a romaria, sempre animado para os causos e
rezas que durariam a noite toda e entrariam pela manhã.
No meio do caminho muitos desistiam,
mesmo os que nada levavam para lhes causar dor, os pés é que não aguentavam
mesmo, as pernas fraquejavam, o corpo padecia, a fé desmoronava diante dos
amigos e irmãos de caminhada. Seu Chico, generoso, pegava para si as promessas
dos que então voltavam, e ainda mais animado ele ficava, mais fortalecido e
cheio de vida! Ganhava ainda mais admiração e respeito dos companheiros, que se
envergonhavam ao fraquejar diante do ancião. Respiravam fundo e seguiam em
frente. Os pés sangravam, as bolhas estouravam e formavam bolhas ainda maiores
por cima da pele morta da outra. Todos resmungavam, choravam e imploravam a
Deus por um alívio por menor que fosse, menos Seu Chico, que seguia em reza e
prosa.
– Só pode ser um homem santo! –
dizia uma romeira de Araguari.
– Isso é um milagre de Nossa Mãe do
Rosário! – exclamava o pároco de Tupaciguara.
E Seu Chico Sabino, humildemente
devolvia:
– Somente fé, meus irmãos! Somente
fé!
O sol apontava devagar, o caminho
chegava ao fim. Dos mais de cem romeiros, apenas quinze deram conta de chegar
ao destino. No bucólico distrito de Santa Maria, as casas coloniais estavam
todas enfeitadas para receber aquelas pessoas de fé e resistência. Senhoras
ligadas à Ordem do Rosário, preparavam um rico e farto café da manhã,
compressas de água quente para os pés mais desvalidos, curativos, banho de
ervas, tudo que podiam para aliviar a dor dos peregrinos.
Foram bravamente recebidos na capela
pelos párocos de todas as igrejas de Uberlândia, que haviam chegado poucos minutos
antes, de jardineira. Entre cantoria e fogos, uns iam desmaiando no adro,
enquanto outros, sentados, contabilizavam o que sobrara dos pés já descalços e
inutilizados.
Apenas um ainda ficava de pé: Chico
Sabino.
– Ora, Seu Chico! Não se faça de rogado!
Sabemos que senhor também está cansado, seus pés merecem um descanso. Vamos!
Sente-se, tire seus sapatos que lhe trago uma bacia com escaldo! –disse uma
gentil senhora da vila.
Seu Chico agradeceu e disse que
estava tudo bem com seus pés. Ficaria assim mesmo, até o fim da festa. E
ganhara ainda mais alcunha de homem santo.
Escutando isso, um dos padres
presentes o chamou na sacristia e muito sem jeito perguntou:
– Seu Chico, a cada ano admiro mais
o senhor e sua fé, por isso preciso perguntá-lo, qual é o santo segredo da sua
resistência, por que seus pés nunca doeram nessa caminhada? Sei que o senhor é
um homem do campo, resistente, acostumado a percorrer longas distâncias à pé,
mas com feijões nos sapatos é quase impossível não haver dano. Tenho amigos influentes no Vaticano, acho que
eles precisam saber do que vem acontecendo em nossas terras, o senhor
atribuiria esse milagre a quem? Conte-me, por favor.
Chico Sabino coçou a barba, o
bigode, a cabeça, o antebraço, o dorso da mão, e quando não tinha mais nada a
coçar respondeu ao padre:
– O senhor vai me escutar em
confissão?
– Claro! Prometo segredo de
confessionário.
– É o milagre do feijão! – respondeu
Seu Chico.
– Do feijão? – estranhou o padre.
– Sim senhor! Eu sempre coloco
feijões nos sapatos antes da caminhada.
– Mas disso todos nós sabemos, Seu
Chico!
– Pois então, padre!
– Mas o que o senhor fez com esses
feijões? Mandou benzê-los?
– Num é feijão bento não, padre! É
só cozido mesmo.
---
*Conto selecionado para Antologia "Uberlândia 20 autores", livro distribuído gratuitamente pelo projeto Livro de Graça na Praça, em 06 de outubro de 2013.
terça-feira, junho 11, 2013
Aquela que eu lia
Conto de Jacqueline Salgado
(para Maria Gabriela Llansol)
O vento não encontra obstáculos no alto da Serra da Arrábida. O eremitério em silêncio, a bruma leve do mar que bate nas pedras, tão distante dos pés que insisto em firmar numa das paisagens mais misteriosas e mágicas de Portugal. É uma grandeza tão intensa que me protege. Nunca imaginei que me seria tão necessário recorrer à escrita desde que atravessei o oceano ao encontro daquela que leio. Escrevi, pois, com um pau de figueira riscando a areia grossa de um pedaço de rocha desfeita incorporada ao solo. O eremitério continuava em silêncio. Vaguei a riscar o chão até parar no obstáculo da pedra rígida, sem areia, sem cascalho, sem escrita. A rocha estava ali a censurar meu pau de figueira e o penhasco a censurar meu corpo.
Frágil corpo. Frágil escrita.
Impossível continuar. E quem disse que era preciso? O que eu escrevia no chão não cabe em papel algum, não sei dizer, é indizível. Não sei transcrever, é reflexão. Estaria eu diante do abismo entre corpo e escrita? Ou seria a fusão dos dois lugares? O lugar do corpo, o lugar da escrita, contraditórios e absolutos. No fim, o que restou foi o lugar do silêncio, desejo que ainda me move.
Vi-me sentada a beira da água, lá em baixo, junto ao mar, num canto de areia, trégua de rochas, com a mesma vara de figueira a riscar. Seria tão fácil, afinal, tudo o que escreves pode ser encarado como uma procura, e deslizar a escrita na areia farta e generosa, seria render-me as pautas, seria como abrir uma porta sobre o texto e dar-lhe passagem. As ondas logo viriam a engolir meu texto, transformando-o numa verdade efêmera, mas não menos verdade.
Lancei a vara de figueira ao mar, observei duas ou três gaivotas escreverem seu voo e depois voltei pro quarto do hotel no silêncio do eremitério. Dispensei a poesia para me despir num banho longo e distraído. Logo a vontade de escrever passou. Retomei a leitura daquela que eu lia e que buscava. Se eu ficasse ali, a ler incessantemente, transformar-me-ia num deserto intuitivo, num caldeirão de vozes a transbordar conceitos dos quais já me embebedara tantas vezes. Só restava esperar pela noite, então adormeci absorta de palavras, porém afastada do que eu era, longe léguas de mim.
Na manhã seguinte atravessei o portão em direção ao jardim do penhasco e o que ouvi foi um coro de vozes e sonidos que não havia ouvido desde o dia em que chegara a Lisboa. O eremitério acordara finalmente, ou era eu quem despertava da prisão mística da busca? Era inútil querer o silêncio. Nuvens sonoras pairavam sobre mim, a bruma lá em baixo, exalava o grito do mar lançado ao rochedo, as gaivotas falavam sua língua enquanto continuavam a escrever seu voo. Uma aranha tecia sua linguagem em forma de armadilha sobre as pétalas secas da hortênsia, eu a observei e não senti mais vontade de entendê-la.
Tive a sensação pulsante e inquietante de existir, de ser apenas. Eu desejava escrever mais do que escrevia, desejava falar daquilo que não se consegue, como uma vez, quando era menina e quis ilustrar uma oração. Eu era um pouco como aquela que eu lia, sabia disso, e ante a falta de silêncio pensei não poder mais encontrá-la em mim. Então procurei outro pau de figueira que me fizesse a voz e risquei o cascalho com uma só palavra: “Llansol”.
Naquele instante, como se pela alquimia de todos os sons, ouvi um único distinguível que dizia: “A mim me basta saber existir. Exista a ti mesma. Escreva teu nome, não o meu”. Girei em torno do meu eixo com a cabeça em mil direções fitando cada partícula de existência em busca daquela voz. Olhei o cascalho, o pau de figueira, as gaivotas, as nuvens, a aranha, a hortênsia, a bruma, o eremitério, o bosque, os turistas, o mar... Olhei o vazio e o silêncio do dia anterior. Atordoada de rodopios, colidi-me a uma sobreira velha que paria cortiça e ouvi mais uma vez: “Eis o traço do teu corpo, de tua voz”.
Pouco a pouco as folhas da sobreira iam caindo, o verde ruía. A árvore falava sua língua. A gaivota falava a sua língua. A aranha falava a sua língua. “É fora que ela é, é dentro que ela existe”. E eram tantas as línguas que não mais pude ouvir a voz daquela que eu lia, talvez estivesse perdida na simbiose mística e carregada da linguagem dos seres, vagando solicita a desdizer seu próprio texto, presa na armadilha de sua escrita, revés da aranha.
Deixar-lhe-ia em paz, afinal, para que servem os leitores senão para mergulhar na escrita? Mergulhar e não apreender. Não mais lia àquela, nem a qualquer outro, apenas mergulhava quando queria me afogar um pouco, e quando voltava à tona era como se tivesse ilustrado uma oração.
quarta-feira, maio 08, 2013
O Artífice
Foi dormir pensando em contrariar os niilistas russos.
Trocou um par de botas por um sonho de uma noite de verão.
Jacqueline Salgado
(Microconto publicado na II antologia de "Microcontos de Humor de Piracicaba" - 2012)
sexta-feira, abril 26, 2013
Cramondongue
Todas as noites,
passa um cramondongue
debaixo da minha janela.
Não pra me assombrar,
mas pra abafar o som carros
... que não cessam na avenida,
e me fazer dormir
pensando estar
nos braços de Minas.
Jacqueline Salgado
passa um cramondongue
debaixo da minha janela.
Não pra me assombrar,
mas pra abafar o som carros
... que não cessam na avenida,
e me fazer dormir
pensando estar
nos braços de Minas.
Jacqueline Salgado
sexta-feira, abril 19, 2013
Alípio de Sá Romão
Esse é Alípio de Sá Romão*, mineiro, poeta e cordelista.
É através dele que eu assino meu regionalismo puro, simples e devoto.
Alípio nasceu na cidade de Datas, MG (pertim de Diamantina!), no dia 05 de janeiro de 1925.
--
* Heterônimo de Jacqueline Salgado.--
Poema de Alípio de Sá Romão
---
Baladeira
Baladeira feriu o melro,
Cortou o rabo do jacu.
Machucou a seriema,
Acabou com o inhambu.
Esticou o quero-quero,
Calou o uirapuru.
Prende logo esse moleque
No buraco do tatu!
segunda-feira, fevereiro 04, 2013
De Minas para São Paulo
Já estou morando em Bauru, centro-oeste paulista, espero conhecer novas culturas, novas pessoas, trocar muitas ideias e fazer muita arte e muita poesia!
Poetas, escritores e artistas de Bauru e região: estou aqui pro que der e vier!
Nosso "Grupo Literário" já está saindo do forno!!!
Poetas, escritores e artistas de Bauru e região: estou aqui pro que der e vier!
Nosso "Grupo Literário" já está saindo do forno!!!
segunda-feira, janeiro 07, 2013
sábado, agosto 04, 2012
Maria Gabriela Llansol - Saber esperar alguém

Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti ---------------
------------------------ até que a dor alegre recomece.
--
Maria Gabriela Llansol
"O começo de um livro é precioso"
assírio & alvim 2003
terça-feira, abril 10, 2012
Meus novos trabalhos publicados


Lançados no final de 2011 pela Editora UFV, os livros "E por falar em Versos" (poemas) e "Páginas Contadas" (contos), contam com 3 obras de minha autoria:
Poemas: "Diário de um Jardim de Papel" e "Balaio de Estrelas"
Conto: "Fiat Lux"
O poema Balaio de Estrelas recebeu um prêmio em sua categoria.
Os livros podem ser encontrados no site da Editora UFV: www.editoraufv.com.br
domingo, fevereiro 05, 2012
Relatos Autobiográficos: A QUARTA INFÂNCIA
Quando eu morei num antigo sobrado na Rua Alvaro Gouveia, Viçosa/MG, que aliás não é esse da foto! Era bem mais simples, e na parte de baixo havia duas portinhas de um antigo comércio, que servia de depósito para o Seu Amantino guardar o material da venda.Para receber o texto escreva para jacsalgado@yahoo.com.br que eu envio com o maior prazer, assim como todos os textos anteriores da coletânea de Relatos Autobiográficos. Lembrando que a Primeira Infância e a Segunda estão neste blog , na integra.
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