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quarta-feira, novembro 13, 2013

Fogão à lenha



Cresci observando vovó na lida com o fogão à lenha, na velha casa do distrito de Silvestre.


Era dele que vinha quase tudo de que precisava: o alimento, o torresmo, os doces de tacho, as fornadas de broa e tareco, a prosa, as histórias de assombração, o calor que aquecia minhas mãos nas noites frias de Viçosa.

Às vezes o frio era tanto, que mal o sol amoitava na cacunda do morro, mamãe já me vestia de flanela e meia de tricô, eu puxava um banquinho e subia com ele à taipa do fogão. Enquanto vovô ouvia seus caipiras na vitrolinha e aguardava a noite apiar, eu esticava as mãos miúdas, chegava os pés no calor da brasa pra “quentá fogo” e depois voltava pra casa ao lado pra dormir aquecida por dentro e por fora. O cheirinho da fumaça dos fogões se apagando subia pelas chaminés de Silvestre, entrava nos sonhos e na memória da gente, nada tira esse cheiro de dentro de mim.

Quando vou à casa dos meus pais, o que mais gosto de ver é o fogo atiçado na lenha.

Pai pega a madeira e os galhos secos de fogo fácil, mãe “chama a binga” na lenha e a brasa chamusca, incandesce e depois virá uma pequena fogueira malocada na fenda de barro.

E ali eu fico por horas, sentindo a mescla leve do cheiro da fumaça, do café, do feijão, do toucinho e da simplicidade, que é a essência da construção de qualquer menino criado às voltas com um fogão à lenha.

terça-feira, outubro 08, 2013

O Devedor de Promessas


Jacqueline Salgado

            Conta-se que Uberlândia é a cidade que mais promessas deve aos santos. Tudo graças a um benfeitor de alma simples, que era procurado pelos inválidos das redondezas para pagar as promessas em seu lugar.
            Foi por volta de 1930 que apareceu por lá esse sitiante de nome Chico Sabino, que vivia bem próximo à cidade. Ora meio abobado, ora certeiro, Seu Chico tinha duas paixões na vida: lavoura e fé! Enquanto havia sol no teto, lavorava, quando a noite apontava, escaldava-se na bacia de alumínio, mandava um cumê pra dentro e lá estava ele, às voltas com a igreja do bairro.
            Todos lhe tinham muita admiração e respeito. Ajudava nas missas, nas quermesses, doava parte do que produzia, às duras penas, para o orfanato da paróquia, muitas foram as contribuições de Seu Chico Sabino. Mas talvez nenhuma lhe dera tanta fama quanto a de “pagador de promessas alheias”.
            Foi numa véspera de festejo religioso que a comunidade se juntou para seguir a pé os 40 quilômetros, da cidade até o distrito de Santa Maria, atual Miraporanga, onde fica a Capela de Nossa Senhora do Rosário. Naquele ano o padre prometera festa das boas! Era a “Festa do Rosário” mais aguardada da região. Pagadores de promessas se juntaram ao Seu Chico pra aguardar o início da peregrinação, que duraria a noite toda e levaria muita gente a sangrar seus pés em nome da fé. Com pena dos idosos, dos inválidos, das crianças, gestantes e deficientes, Seu Chico se ofereceu para pagar por eles as promessas feitas à santa, e daquele ano em diante sua fama se espalhara por toda Uberlândia e cidades vizinhas, onde ficara conhecido por um homem santo, generoso e de fé extremada.
            Muitos não entendiam como um senhor, já de certa idade, aguentava firme e forte o longo trajeto da cidade até a capela, e entendiam menos ainda, como alguém conseguia percorrer os 40 km com feijão dentro dos sapatos? Isso mesmo! Seu Chico e alguns romeiros mais radicais colocavam feijões dentro dos sapatos para que a caminhada se tornasse ainda mais dura e lhes vale-se uma chegada mais penitente e livre de qualquer promessa.
            Eis que chegou, então, o dia da caminhada. Pouco antes de saírem, o padre rezou uma missa aos romeiros e lhes ofereceu água e pão, e assim que o sol amoitou no horizonte do cerrado, os fieis pegaram a estrada.
            O caminho era de chão batido, com muitos pedregulhos e fendas, os perigos não eram poucos: buracos escondidos pela escuridão da noite, abismos na barranqueira, animais selvagens, porém o mais difícil dessa empreitada ficava por conta dos feijões que alguns carregavam nos sapatos. Aos 83 anos, Seu Chico Sabino jamais deixara de colocar os caroços. Era ele quem liderava a romaria, sempre animado para os causos e rezas que durariam a noite toda e entrariam pela manhã.
            No meio do caminho muitos desistiam, mesmo os que nada levavam para lhes causar dor, os pés é que não aguentavam mesmo, as pernas fraquejavam, o corpo padecia, a fé desmoronava diante dos amigos e irmãos de caminhada. Seu Chico, generoso, pegava para si as promessas dos que então voltavam, e ainda mais animado ele ficava, mais fortalecido e cheio de vida! Ganhava ainda mais admiração e respeito dos companheiros, que se envergonhavam ao fraquejar diante do ancião. Respiravam fundo e seguiam em frente. Os pés sangravam, as bolhas estouravam e formavam bolhas ainda maiores por cima da pele morta da outra. Todos resmungavam, choravam e imploravam a Deus por um alívio por menor que fosse, menos Seu Chico, que seguia em reza e prosa.
            – Só pode ser um homem santo! – dizia uma romeira de Araguari.
            – Isso é um milagre de Nossa Mãe do Rosário! – exclamava o pároco de Tupaciguara.
            E Seu Chico Sabino, humildemente devolvia:
            – Somente fé, meus irmãos! Somente fé!
            O sol apontava devagar, o caminho chegava ao fim. Dos mais de cem romeiros, apenas quinze deram conta de chegar ao destino. No bucólico distrito de Santa Maria, as casas coloniais estavam todas enfeitadas para receber aquelas pessoas de fé e resistência. Senhoras ligadas à Ordem do Rosário, preparavam um rico e farto café da manhã, compressas de água quente para os pés mais desvalidos, curativos, banho de ervas, tudo que podiam para aliviar a dor dos peregrinos.
            Foram bravamente recebidos na capela pelos párocos de todas as igrejas de Uberlândia, que haviam chegado poucos minutos antes, de jardineira. Entre cantoria e fogos, uns iam desmaiando no adro, enquanto outros, sentados, contabilizavam o que sobrara dos pés já descalços e inutilizados.
            Apenas um ainda ficava de pé: Chico Sabino.
            – Ora, Seu Chico! Não se faça de rogado! Sabemos que senhor também está cansado, seus pés merecem um descanso. Vamos! Sente-se, tire seus sapatos que lhe trago uma bacia com escaldo! –disse uma gentil senhora da vila.
            Seu Chico agradeceu e disse que estava tudo bem com seus pés. Ficaria assim mesmo, até o fim da festa. E ganhara ainda mais alcunha de homem santo.
            Escutando isso, um dos padres presentes o chamou na sacristia e muito sem jeito perguntou:
            – Seu Chico, a cada ano admiro mais o senhor e sua fé, por isso preciso perguntá-lo, qual é o santo segredo da sua resistência, por que seus pés nunca doeram nessa caminhada? Sei que o senhor é um homem do campo, resistente, acostumado a percorrer longas distâncias à pé, mas com feijões nos sapatos é quase impossível não haver dano.  Tenho amigos influentes no Vaticano, acho que eles precisam saber do que vem acontecendo em nossas terras, o senhor atribuiria esse milagre a quem? Conte-me, por favor.
            Chico Sabino coçou a barba, o bigode, a cabeça, o antebraço, o dorso da mão, e quando não tinha mais nada a coçar respondeu ao padre:
            – O senhor vai me escutar em confissão?
            – Claro! Prometo segredo de confessionário.
            – É o milagre do feijão! – respondeu Seu Chico.
            – Do feijão? – estranhou o padre.
            – Sim senhor! Eu sempre coloco feijões nos sapatos antes da caminhada.
­            – Mas disso todos nós sabemos, Seu Chico!
            – Pois então, padre!
            – Mas o que o senhor fez com esses feijões? Mandou benzê-los?
            – Num é feijão bento não, padre! É só cozido mesmo.
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*Conto selecionado para Antologia "Uberlândia 20 autores", livro distribuído gratuitamente pelo projeto Livro de Graça na Praça, em 06 de outubro de 2013.
                      


terça-feira, junho 11, 2013

Aquela que eu lia


Conto de Jacqueline Salgado


(para Maria Gabriela Llansol)



O vento não encontra obstáculos no alto da Serra da Arrábida. O eremitério em silêncio, a bruma leve do mar que bate nas pedras, tão distante dos pés que insisto em firmar numa das paisagens mais misteriosas e mágicas de Portugal. É uma grandeza tão intensa que me protege. Nunca imaginei que me seria tão necessário recorrer à escrita desde que atravessei o oceano ao encontro daquela que leio. Escrevi, pois, com um pau de figueira riscando a areia grossa de um pedaço de rocha desfeita incorporada ao solo. O eremitério continuava em silêncio. Vaguei a riscar o chão até parar no obstáculo da pedra rígida, sem areia, sem cascalho, sem escrita. A rocha estava ali a censurar meu pau de figueira e o penhasco a censurar meu corpo.

Frágil corpo. Frágil escrita.

Impossível continuar. E quem disse que era preciso? O que eu escrevia no chão não cabe em papel algum, não sei dizer, é indizível. Não sei transcrever, é reflexão. Estaria eu diante do abismo entre corpo e escrita? Ou seria a fusão dos dois lugares? O lugar do corpo, o lugar da escrita, contraditórios e absolutos. No fim, o que restou foi o lugar do silêncio, desejo que ainda me move.

Vi-me sentada a beira da água, lá em baixo, junto ao mar, num canto de areia, trégua de rochas, com a mesma vara de figueira a riscar. Seria tão fácil, afinal, tudo o que escreves pode ser encarado como uma procura, e deslizar a escrita na areia farta e generosa, seria render-me as pautas, seria como abrir uma porta sobre o texto e dar-lhe passagem. As ondas logo viriam a engolir meu texto, transformando-o numa verdade efêmera, mas não menos verdade.

Lancei a vara de figueira ao mar, observei duas ou três gaivotas escreverem seu voo e depois voltei pro quarto do hotel no silêncio do eremitério. Dispensei a poesia para me despir num banho longo e distraído. Logo a vontade de escrever passou. Retomei a leitura daquela que eu lia e que buscava. Se eu ficasse ali, a ler incessantemente, transformar-me-ia num deserto intuitivo, num caldeirão de vozes a transbordar conceitos dos quais já me embebedara tantas vezes. Só restava esperar pela noite, então adormeci absorta de palavras, porém afastada do que eu era, longe léguas de mim.

Na manhã seguinte atravessei o portão em direção ao jardim do penhasco e o que ouvi foi um coro de vozes e sonidos que não havia ouvido desde o dia em que chegara a Lisboa. O eremitério acordara finalmente, ou era eu quem despertava da prisão mística da busca? Era inútil querer o silêncio. Nuvens sonoras pairavam sobre mim, a bruma lá em baixo, exalava o grito do mar lançado ao rochedo, as gaivotas falavam sua língua enquanto continuavam a escrever seu voo. Uma aranha tecia sua linguagem em forma de armadilha sobre as pétalas secas da hortênsia, eu a observei e não senti mais vontade de entendê-la.

Tive a sensação pulsante e inquietante de existir, de ser apenas. Eu desejava escrever mais do que escrevia, desejava falar daquilo que não se consegue, como uma vez, quando era menina e quis ilustrar uma oração. Eu era um pouco como aquela que eu lia, sabia disso, e ante a falta de silêncio pensei não poder mais encontrá-la em mim. Então procurei outro pau de figueira que me fizesse a voz e risquei o cascalho com uma só palavra: “Llansol”.

Naquele instante, como se pela alquimia de todos os sons, ouvi um único distinguível que dizia: “A mim me basta saber existir. Exista a ti mesma. Escreva teu nome, não o meu”. Girei em torno do meu eixo com a cabeça em mil direções fitando cada partícula de existência em busca daquela voz. Olhei o cascalho, o pau de figueira, as gaivotas, as nuvens, a aranha, a hortênsia, a bruma, o eremitério, o bosque, os turistas, o mar... Olhei o vazio e o silêncio do dia anterior. Atordoada de rodopios, colidi-me a uma sobreira velha que paria cortiça e ouvi mais uma vez: “Eis o traço do teu corpo, de tua voz”.

Pouco a pouco as folhas da sobreira iam caindo, o verde ruía. A árvore falava sua língua. A gaivota falava a sua língua. A aranha falava a sua língua. “É fora que ela é, é dentro que ela existe”. E eram tantas as línguas que não mais pude ouvir a voz daquela que eu lia, talvez estivesse perdida na simbiose mística e carregada da linguagem dos seres, vagando solicita a desdizer seu próprio texto, presa na armadilha de sua escrita, revés da aranha.

Deixar-lhe-ia em paz, afinal, para que servem os leitores senão para mergulhar na escrita? Mergulhar e não apreender. Não mais lia àquela, nem a qualquer outro, apenas mergulhava quando queria me afogar um pouco, e quando voltava à tona era como se tivesse ilustrado uma oração.





quarta-feira, maio 08, 2013

O Artífice


Foi dormir pensando em contrariar os niilistas russos.
Trocou um par de botas por um sonho de uma noite de verão.

Jacqueline Salgado

(Microconto publicado na II antologia de "Microcontos de Humor de Piracicaba" - 2012)

sexta-feira, abril 26, 2013

Cramondongue

Todas as noites,


passa um cramondongue

debaixo da minha janela.

Não pra me assombrar,

mas pra abafar o som carros

... que não cessam na avenida,

e me fazer dormir

pensando estar

nos braços de Minas.



Jacqueline Salgado

sexta-feira, abril 19, 2013

Alípio de Sá Romão

Esse é Alípio de Sá Romão*, mineiro, poeta e cordelista.
É através dele que eu assino meu regionalismo puro, simples e devoto.
Alípio nasceu na cidade de Datas, MG (pertim de Diamantina!), no dia 05 de janeiro de 1925.
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* Heterônimo de Jacqueline Salgado.
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Poema de Alípio de Sá Romão

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Baladeira


Baladeira feriu o melro,

Cortou o rabo do jacu.

Machucou a seriema,

Acabou com o inhambu.

Esticou o quero-quero,

Calou o uirapuru.

Prende logo esse moleque

No buraco do tatu!

segunda-feira, fevereiro 04, 2013

De Minas para São Paulo

Já estou morando em Bauru, centro-oeste paulista, espero conhecer novas culturas, novas pessoas, trocar muitas ideias e fazer muita arte e muita poesia!
Poetas, escritores e artistas de Bauru e região: estou aqui pro que der e vier!
Nosso "Grupo Literário" já está saindo do forno!!!