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terça-feira, junho 11, 2013

Aquela que eu lia


Conto de Jacqueline Salgado


(para Maria Gabriela Llansol)



O vento não encontra obstáculos no alto da Serra da Arrábida. O eremitério em silêncio, a bruma leve do mar que bate nas pedras, tão distante dos pés que insisto em firmar numa das paisagens mais misteriosas e mágicas de Portugal. É uma grandeza tão intensa que me protege. Nunca imaginei que me seria tão necessário recorrer à escrita desde que atravessei o oceano ao encontro daquela que leio. Escrevi, pois, com um pau de figueira riscando a areia grossa de um pedaço de rocha desfeita incorporada ao solo. O eremitério continuava em silêncio. Vaguei a riscar o chão até parar no obstáculo da pedra rígida, sem areia, sem cascalho, sem escrita. A rocha estava ali a censurar meu pau de figueira e o penhasco a censurar meu corpo.

Frágil corpo. Frágil escrita.

Impossível continuar. E quem disse que era preciso? O que eu escrevia no chão não cabe em papel algum, não sei dizer, é indizível. Não sei transcrever, é reflexão. Estaria eu diante do abismo entre corpo e escrita? Ou seria a fusão dos dois lugares? O lugar do corpo, o lugar da escrita, contraditórios e absolutos. No fim, o que restou foi o lugar do silêncio, desejo que ainda me move.

Vi-me sentada a beira da água, lá em baixo, junto ao mar, num canto de areia, trégua de rochas, com a mesma vara de figueira a riscar. Seria tão fácil, afinal, tudo o que escreves pode ser encarado como uma procura, e deslizar a escrita na areia farta e generosa, seria render-me as pautas, seria como abrir uma porta sobre o texto e dar-lhe passagem. As ondas logo viriam a engolir meu texto, transformando-o numa verdade efêmera, mas não menos verdade.

Lancei a vara de figueira ao mar, observei duas ou três gaivotas escreverem seu voo e depois voltei pro quarto do hotel no silêncio do eremitério. Dispensei a poesia para me despir num banho longo e distraído. Logo a vontade de escrever passou. Retomei a leitura daquela que eu lia e que buscava. Se eu ficasse ali, a ler incessantemente, transformar-me-ia num deserto intuitivo, num caldeirão de vozes a transbordar conceitos dos quais já me embebedara tantas vezes. Só restava esperar pela noite, então adormeci absorta de palavras, porém afastada do que eu era, longe léguas de mim.

Na manhã seguinte atravessei o portão em direção ao jardim do penhasco e o que ouvi foi um coro de vozes e sonidos que não havia ouvido desde o dia em que chegara a Lisboa. O eremitério acordara finalmente, ou era eu quem despertava da prisão mística da busca? Era inútil querer o silêncio. Nuvens sonoras pairavam sobre mim, a bruma lá em baixo, exalava o grito do mar lançado ao rochedo, as gaivotas falavam sua língua enquanto continuavam a escrever seu voo. Uma aranha tecia sua linguagem em forma de armadilha sobre as pétalas secas da hortênsia, eu a observei e não senti mais vontade de entendê-la.

Tive a sensação pulsante e inquietante de existir, de ser apenas. Eu desejava escrever mais do que escrevia, desejava falar daquilo que não se consegue, como uma vez, quando era menina e quis ilustrar uma oração. Eu era um pouco como aquela que eu lia, sabia disso, e ante a falta de silêncio pensei não poder mais encontrá-la em mim. Então procurei outro pau de figueira que me fizesse a voz e risquei o cascalho com uma só palavra: “Llansol”.

Naquele instante, como se pela alquimia de todos os sons, ouvi um único distinguível que dizia: “A mim me basta saber existir. Exista a ti mesma. Escreva teu nome, não o meu”. Girei em torno do meu eixo com a cabeça em mil direções fitando cada partícula de existência em busca daquela voz. Olhei o cascalho, o pau de figueira, as gaivotas, as nuvens, a aranha, a hortênsia, a bruma, o eremitério, o bosque, os turistas, o mar... Olhei o vazio e o silêncio do dia anterior. Atordoada de rodopios, colidi-me a uma sobreira velha que paria cortiça e ouvi mais uma vez: “Eis o traço do teu corpo, de tua voz”.

Pouco a pouco as folhas da sobreira iam caindo, o verde ruía. A árvore falava sua língua. A gaivota falava a sua língua. A aranha falava a sua língua. “É fora que ela é, é dentro que ela existe”. E eram tantas as línguas que não mais pude ouvir a voz daquela que eu lia, talvez estivesse perdida na simbiose mística e carregada da linguagem dos seres, vagando solicita a desdizer seu próprio texto, presa na armadilha de sua escrita, revés da aranha.

Deixar-lhe-ia em paz, afinal, para que servem os leitores senão para mergulhar na escrita? Mergulhar e não apreender. Não mais lia àquela, nem a qualquer outro, apenas mergulhava quando queria me afogar um pouco, e quando voltava à tona era como se tivesse ilustrado uma oração.