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sexta-feira, abril 16, 2010

Relatos Autobiográficos: A Segunda Infância

Por: Jacqueline Salgado

“A casa” ainda existia, embora mais parecesse com aquela do poema homônimo de Vinícius de Moraes, “não tinha teto, não tinha (quase) nada”! Mas havia ali toda a minha presença. A pia do banheiro que eu não alcançava, o fogão a lenha pra “quentá fogo”, a escadinha da cozinha onde eu lasquei o queixo ensinando minha irmã a engatinhar...ainda guardo uma cicatriz! Enfim, era a mesma casa, a minha segunda morada!

Afastada 6 km da cidade, fomos morar ali para ficar próximos ao local de trabalho do meu pai, que era funcionário público federal, atuava como professor de música e instrutor recreativo da extinta FUNABEM, Fundação Nacional do Bem Estar do Menor. A instituição recebia menores carentes e infratores de várias partes do país, principalmente do Rio. Apesar dos programas de recuperação muito eficientes e interativos, vez ou outra um “aluno” burlava a segurança e escapava pela mata adentro, às vezes na tentativa de voltar pra casa, outras para cometer algum delito nas redondezas. E foi assim que meu pai, cansado de ser acordado no meio da noite, pegar a estrada para ajudar a alcançar os “fujões”, resolveu ir para perto do trabalho e nos levou para morar no lugar mais encantador que uma criança poderia viver!

Da Fundação até minha casa havia um caminho de terra estreito acompanhado por mangueiras em ambos os lados, e não era qualquer mangueira não, era manga “ubá” mesmo! Aquela amarelinha por dentro e pretinha por fora, a mais gostosa de todas, também conhecida como “carlotinha”! Ainda sinto o cheiro da manga madura, é o cheiro do meu trajeto até o ponto de ônibus da escola, bendito trajeto... com cheiro de manga e sombra até o final! Na primavera, as mangueiras se enchiam de cigarras. Elas que me ensinaram o quanto pode ser chic “morrer de cantar”!

O pequeno lago à esquerda da casa, hoje coberto por taboas (aquelas plantas aquáticas em que a flor parece um microfone), era o palco dos marrecos d'água, não para bailarem com a elegância de um cisne, mas para vadiarem a tarde toda, causando inveja nas galinhas d'Angola apáticas e ciscadoras de terra seca! Da janela do meu quarto eu podia jogar uma pedra no lago, era muito próximo. A nascente era ali mesmo, no silêncio da noite dava pra escutar as borbulhas da água brotando da lama. O que mais uma criança “pisciana” poderia querer? Pois ainda havia um rio cortando o meu quintal! O rio Turvo , aquele que deu origem ao primeiro nome de Viçosa, quando esta se chamava Povoado de Santa Rita do Turvo. Caudaloso e lamacento, continuava a mesma coisa desde a época em que pescava lambari s com meu pai, talvez um pouquinho mais magro, mas nem de perto nas proporções em que o São Francisco vem “emagrecendo”!

Cruzei o mato do quintal e me agachei às suas margens, como um pescador de ilusões cuja as varas são as lembranças e os anseios. Naquele mesmo lugar, quando eu tinha cinco anos, conheci o “quinze”, um menino caolho que de vez em quando pescava aos fundos do nosso quintal.

_ Quem é você?

_ Sou aluno da Fundação.

_ E por que você pesca aqui? O rio também passa por lá!

_ Seu pai foi quem deixou, sou aluno dele.

_ Ah! E qual é seu nome?

_ Quinze.

_ Quinze? Isso é número, não é nome!

_ Eu sei, mas aqui todo mundo me chama de “quinze”. Cada um recebe um número quando chega, fica mais fácil.

Nos tornamos amigos, e anos depois fui descobrir que ele “pescava” a pedido do meu pai, para me vigiar e não deixar que eu chegasse muito perto do rio! Havia um outro aluno que não saía da minha casa, ajudava minha mãe na cozinha, ou me empurrava no balanço. Esse era o “número 3”. Muito calmo, de voz mansa, segurava um garfo como ninguém. Foi meu primeiro amigo gay. Mandado de Quintino pelos seus pais para receber uma educação rigorosa na Funabem, voltou mais bicha do que chegou!

E continuou passando aquele velho filme da vida... assim como passava o tempo, assim como passava o rio.

Olhei a mangueira do quintal que era só minha, o balanço que meu avô fez pra mim não mais existia, porém o velho amarrou tão forte a corda de sisal que dava pra ver as marcas do “vai-e-vem” no tronco!

Minha última parada foi o estábulo. Ficava de frente a casa, do outro lado da estrada, era o lar de dois grandes amigos: Paraná e Paraíso.

Paraná era um “bitelo” de um boi, gordo e inteligente feito ele só! Puxava o seu carrinho sozinho todas as manhãs levando hortaliças para a sede da Escola. Bastava que alguém as colocasse na carrocinha, batesse de leve na sua traseira e desse a ordem:

_ Paraná! Paraná! Leva!

E ele levava mesmo! Depois regressava sozinho ao estábulo.

Já o Paraíso era um cavalo. Não era dos mais belos, mas tinha lá seus encantos, era manso de dar dó. Podia-se montar sem sela, sem nada! Ele é inesquecível pra mim porque foi um dos meus 3 despertadores matinais: o primeiro era o meu avô, que chegava as cinco da manhã “cacarejando” feito galo debaixo de minha janela; o segundo era a zoeira das maritacas, que também chegavam cedo para detonar as frutinhas da “árvore de papagaio”; e finalmente, o cavalo Paraíso, que batia com a cabeça na janela de madeira pra ganhar cafuné! Bichinho folgado esse, não?

E assim foi parte da minha vida, cercada por bichos tão “humanos” quanto gente e de gente “numerada” feito bicho. Cercada de água pura que brota da lama e de água “turva” que corre, de sapo que nasce pra cantar e de cigarra que morre de cantar!

Foi ali, na minha segunda morada, onde eu aprendi a ler na penumbra, que eu busco as origens do meu paradoxo.

Relatos Autobiográficos: A Primeira Infância


Por: Jacqueline Salgado

Viçosa ainda era uma menina quando eu nasci.

Pelas ruas serpenteava o trem de ferro da RFFSA, que atravessava a cidade de ponta a ponta e adentrava pela universidade. Do berçário até minha casa bastava saltar duas ruas e um par de trilhos! A família, muito numerosa, colocou-me em evidência ante a falta de crianças, e nada do que eu fazia era considerado um erro, aprendi desde cedo o que é a distorção sensorial psíquica - ao que mais tarde eu viria a ser cobrada de uma forma corrosiva, justo na puberdade!

Muitos foram os fatos que marcaram meus primeiros quatro anos. Imagens, sons, cheiros e sensações que se fundiram e ainda hoje insistem em ficar estampados na memória, como se o tempo nada pudesse remover. Daquilo que ficou posso ressaltar duas experiências raramente vividas por uma criança de um ou dois anos, mas que foram tão comuns para mim nesse período da vida quanto um banho de sol na praça da matriz!

A idéia fixa em fugir diariamente pelas grades da varanda é o primeiro fato marcante de minha infância. A casa era antiga, pequena, ficava nos fundos, não havia muito espaço para ver os trilhos do trem, somente na pequena varanda da entrada, onde eu me acostumei a driblar quem me acompanhasse e escapava ora por entre os balaústres, ora por entre as grades. Quando o trem apitava então, não havia ninguém que me fizesse segura no interior da casa, nem mesmo uma bacia de alumínio cheia d'água no quintal! Foram tantas fugas e tentativas delas que logo me tornara conhecida por toda a vizinhança. Uma vez, ao desembarcar na casa dos tios em Pirapora MG, coloquei a família em pânico pela cidade a minha procura, só porque eu parti em busca do mundaréu de água do Rio São Francisco que me haviam prometido na viagem! Contentei-me com um poço turvo de água da chuva que topei pelo caminho e assim ficou mais fácil da família e da polícia me encontrar. Valeu à pena ter fugido naquele dia, eu saí em busca de um rio e acabei brincando num poço! Depois disso eu percebi que poderia sonhar bastante, e que se o sonho ficasse pela metade a frustração seria pouca! Minhas fugas sempre tiveram um porquê, a infância foi a única fase da minha vida em que as coisas que eu fazia tinham algum sentido.

Com tantas peripécias, minha mãe logo tratou de arranjar uma babá. A coitada da minha prima Luciana já não dava mais conta de estudar e ficar de olho numa criança tão espevitada! Chegou então a tal babá, uma moça de fala mole e olhar perdido que logo conquistou minha confiança. Chamava-se Lúcia. Duas vezes ao dia me levava pra passear pelas redondezas, às vezes na casa de meus avós um pouquinho acima na mesma rua, outras vezes íamos á praça principal, ou pelo caminho dos trilhos ou simplesmente andávamos pela calçada do hospital, que ficava quase em frente a minha casa.

Com os passar dos dias a babá deixou de me levar até os avós, não ia mais até a praça, nem passeava pelos trilhos, o único lugar que ela me levava com freqüência era o estacionamento do hospital. Mas o que teria de tão atrativo num estacionamento de hospital? Pra mim não havia nada, embora eu gostasse de atravessar os trilhos, mas ela tinha o estranho hábito de ver pessoas dormir sobre uma mesa. A Lúcia me tomava no colo e aos passos discretos entrava por uma portinha na lateral do hospital. O lugar era o necrotério. As pessoas não dormiam, aguardavam a perícia ou o trabalho da funerária! Minha pobre cabecinha miúda não conseguia entender por que certa vez, havia um que “dormia” pelado naquele frio todo de Viçosa e ainda por cima com a barriga toda costurada! E a moça com a roupa suja e rasgada, “tadinha”, tinha um cheiro tão ruim que até hoje consigo puxar pelo nariz! Os olhos perdidos da babá se arregalavam por alguns instantes em cima dos corpos estáticos, como se ela se enchesse de vida e se sentisse com sorte por não estar no lugar deles. Ela então voltava pra casa confiante, com a “criança da patroa” nos braços, e com a satisfação de quem ganhara no jogo do bicho. E assim, diariamente, eu era obrigada a fitar os presuntos do necrotério do Hospital São Sebastião, até o dia em que minha mãe descobriu, e apavorada mandou a moça “catar coquinho”! Rumores se espalharam pela cidade...a coitada da babá levou fama de psicopata, de feiticeira e até de necrófila! Mas eu estava de prova: ela só olhava com os olhos saltados!

Para o bem da verdade, nenhum mal isso me fez, pelo contrário, se tivesse feito medicina teria grande chance de ser legista! O único incômodo disso tudo é o odor, meu estômago ainda é fraco! Tenho mais medo de ver um morto num caixão do que na cena do crime, por exemplo!

A pobre babá teve um fim tão trágico quanto o das muitas pessoas daquele seu voyerismo estranho: foi assassinada pelo namorado dentro de um hotel em construção, seu corpo só foi encontrado 3 dias depois. Que destino! Aquela sensação talvez não fosse de confiança, mas de certeza.

E só para não terminar esse relato autobiográfico da primeira infância assim tão mórbido, vou contar o que eu fiz dentro do poço de água da chuva em Pirapora: entrei, molhei os sapatos e as meias brancas, depois juntei as mãos, enchi de água e ...o resto vocês já sabem!

Ai ai, a pureza da infância! Como eu disse, a única fase da minha vida em que as coisas que eu fazia tinham algum sentido!

quinta-feira, abril 15, 2010

"O Meu Cachorrinho"



Eu tenho um cachorrinho
Que é muito bonitinho,
Na hora de dormir,
Sempre pega o meu cantinho!
-
Ele gosta de osso
Mas só na hora do almoço,
Ele sempre corre,
Mas também seu corpo escorre!
-
Ele chega de mansinho
E faz um grande carinho,
E andando pelas ruas...
Que cachorro safadinho!
-
Escrevi aos 7 anos, enquanto estudava na primeira série. Minha professora era a Irmã Cormaria, de quem eu guardo boas lembranças, devo minha letra bonita e caprichada à ela, e também todo o rigor da escrita bem estruturada. Obrigada, Tia Cormaria!

Poema aos 7 anos


Lá vai o ribeirão
Passeando por Viçosa,
Quando molho a minha mão,
Que água mais preciosa!
-
Pra pegar pedras me abaixo,
Pra ver os peixes me curvo,
E as águas seguem descendo
Pra encontrar o rio Turvo!
-
Esse foi um dos meus primeiros versinhos, fi-los sentada às margens do ribeirão São Bartolomeu, que cortava solene e calmamente os quintais da cidade de Viçosa/MG. Tenho saudade de quando suas águas eram limpas!

Meu primeiro "poema musicado"



-

Aos 6 anos escrevi a letra e compus a melodia de uma musiquinha para participar do festival bíblico do Colégio Normal Nossa Senhora do Carmo, em Viçosa, mas como eu não tinha idade, (hehe) não me deixaram participar! Só me lembro dessas frases (era maior a música):
-

(refrão)
-
Oh meu Deus,
Oh meu senhor!
Me deu muito carinho,
Me deu muito amor!
-
Nunca perco de ninguém,
Nem na hora da minha morte,
Porque Deus está comigo,
Sua graça me faz forte!
-
hehehe

Só tinha 6 anos, pode?