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quarta-feira, setembro 17, 2014

Se eu fosse um poema

Se eu fosse um poema,
deixar-me-ia sucumbir à liberdade dos versos
ou à tentadora armadilha das rimas.
Enxertos de prosa seriam bem vindos
sintaxes distorcidas, talvez.
Seria assindético ou polissindético
e nadaria de braçada no caos das conjunções.

Se eu fosse um poema,
seria uma medusa a ostentar
versos e serpentes
e petrificaria
os leitores mais desavisados.

Se eu fosse um poema,
gostaria de caber na ponta de um alfinete
ao mesmo tempo em que, sentado na lua,
eu pudesse balançar os pés no universo.

Se eu fosse um poema,
seria concreto
sonoro
pulsante.
Seria calmo,
seria inquieto,
como um paradoxo no espelho.

Se eu fosse um poema,
seria uma ode de Píndaro,
um soneto de Petrarca
ou um haicai de Bashô.
Seria todo o consolo metalinguístico
infinito,
silencioso,
que abre fissuras nas horas.
Simulacro de sentido.

Se eu fosse um poema,
seria desembaraço,
seria coloquial.
Seria pintado,
mimeografado,
fotocopiado
articulado e reticente.

Se eu fosse um poema,
abusaria das anáforas
verteria aliteração.
Seria cratílico,
idílico,
itálico, etílico,
hiperbólico.

Se eu fosse um poema,
não me importaria em ser jogado ao muro
estampado em faixas de tecido ralo,
tapumes disformes
ou impresso na terceira margem do tempo.

Se eu fosse um poema,
esfregar-me-ia nas folhas em branco
até que o sêmen do lirismo penetrasse
o invólucro do vazio.

Se eu fosse um poema,
sobreviveria aos que ignoram poesia.