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terça-feira, outubro 08, 2013

O Devedor de Promessas


Jacqueline Salgado

            Conta-se que Uberlândia é a cidade que mais promessas deve aos santos. Tudo graças a um benfeitor de alma simples, que era procurado pelos inválidos das redondezas para pagar as promessas em seu lugar.
            Foi por volta de 1930 que apareceu por lá esse sitiante de nome Chico Sabino, que vivia bem próximo à cidade. Ora meio abobado, ora certeiro, Seu Chico tinha duas paixões na vida: lavoura e fé! Enquanto havia sol no teto, lavorava, quando a noite apontava, escaldava-se na bacia de alumínio, mandava um cumê pra dentro e lá estava ele, às voltas com a igreja do bairro.
            Todos lhe tinham muita admiração e respeito. Ajudava nas missas, nas quermesses, doava parte do que produzia, às duras penas, para o orfanato da paróquia, muitas foram as contribuições de Seu Chico Sabino. Mas talvez nenhuma lhe dera tanta fama quanto a de “pagador de promessas alheias”.
            Foi numa véspera de festejo religioso que a comunidade se juntou para seguir a pé os 40 quilômetros, da cidade até o distrito de Santa Maria, atual Miraporanga, onde fica a Capela de Nossa Senhora do Rosário. Naquele ano o padre prometera festa das boas! Era a “Festa do Rosário” mais aguardada da região. Pagadores de promessas se juntaram ao Seu Chico pra aguardar o início da peregrinação, que duraria a noite toda e levaria muita gente a sangrar seus pés em nome da fé. Com pena dos idosos, dos inválidos, das crianças, gestantes e deficientes, Seu Chico se ofereceu para pagar por eles as promessas feitas à santa, e daquele ano em diante sua fama se espalhara por toda Uberlândia e cidades vizinhas, onde ficara conhecido por um homem santo, generoso e de fé extremada.
            Muitos não entendiam como um senhor, já de certa idade, aguentava firme e forte o longo trajeto da cidade até a capela, e entendiam menos ainda, como alguém conseguia percorrer os 40 km com feijão dentro dos sapatos? Isso mesmo! Seu Chico e alguns romeiros mais radicais colocavam feijões dentro dos sapatos para que a caminhada se tornasse ainda mais dura e lhes vale-se uma chegada mais penitente e livre de qualquer promessa.
            Eis que chegou, então, o dia da caminhada. Pouco antes de saírem, o padre rezou uma missa aos romeiros e lhes ofereceu água e pão, e assim que o sol amoitou no horizonte do cerrado, os fieis pegaram a estrada.
            O caminho era de chão batido, com muitos pedregulhos e fendas, os perigos não eram poucos: buracos escondidos pela escuridão da noite, abismos na barranqueira, animais selvagens, porém o mais difícil dessa empreitada ficava por conta dos feijões que alguns carregavam nos sapatos. Aos 83 anos, Seu Chico Sabino jamais deixara de colocar os caroços. Era ele quem liderava a romaria, sempre animado para os causos e rezas que durariam a noite toda e entrariam pela manhã.
            No meio do caminho muitos desistiam, mesmo os que nada levavam para lhes causar dor, os pés é que não aguentavam mesmo, as pernas fraquejavam, o corpo padecia, a fé desmoronava diante dos amigos e irmãos de caminhada. Seu Chico, generoso, pegava para si as promessas dos que então voltavam, e ainda mais animado ele ficava, mais fortalecido e cheio de vida! Ganhava ainda mais admiração e respeito dos companheiros, que se envergonhavam ao fraquejar diante do ancião. Respiravam fundo e seguiam em frente. Os pés sangravam, as bolhas estouravam e formavam bolhas ainda maiores por cima da pele morta da outra. Todos resmungavam, choravam e imploravam a Deus por um alívio por menor que fosse, menos Seu Chico, que seguia em reza e prosa.
            – Só pode ser um homem santo! – dizia uma romeira de Araguari.
            – Isso é um milagre de Nossa Mãe do Rosário! – exclamava o pároco de Tupaciguara.
            E Seu Chico Sabino, humildemente devolvia:
            – Somente fé, meus irmãos! Somente fé!
            O sol apontava devagar, o caminho chegava ao fim. Dos mais de cem romeiros, apenas quinze deram conta de chegar ao destino. No bucólico distrito de Santa Maria, as casas coloniais estavam todas enfeitadas para receber aquelas pessoas de fé e resistência. Senhoras ligadas à Ordem do Rosário, preparavam um rico e farto café da manhã, compressas de água quente para os pés mais desvalidos, curativos, banho de ervas, tudo que podiam para aliviar a dor dos peregrinos.
            Foram bravamente recebidos na capela pelos párocos de todas as igrejas de Uberlândia, que haviam chegado poucos minutos antes, de jardineira. Entre cantoria e fogos, uns iam desmaiando no adro, enquanto outros, sentados, contabilizavam o que sobrara dos pés já descalços e inutilizados.
            Apenas um ainda ficava de pé: Chico Sabino.
            – Ora, Seu Chico! Não se faça de rogado! Sabemos que senhor também está cansado, seus pés merecem um descanso. Vamos! Sente-se, tire seus sapatos que lhe trago uma bacia com escaldo! –disse uma gentil senhora da vila.
            Seu Chico agradeceu e disse que estava tudo bem com seus pés. Ficaria assim mesmo, até o fim da festa. E ganhara ainda mais alcunha de homem santo.
            Escutando isso, um dos padres presentes o chamou na sacristia e muito sem jeito perguntou:
            – Seu Chico, a cada ano admiro mais o senhor e sua fé, por isso preciso perguntá-lo, qual é o santo segredo da sua resistência, por que seus pés nunca doeram nessa caminhada? Sei que o senhor é um homem do campo, resistente, acostumado a percorrer longas distâncias à pé, mas com feijões nos sapatos é quase impossível não haver dano.  Tenho amigos influentes no Vaticano, acho que eles precisam saber do que vem acontecendo em nossas terras, o senhor atribuiria esse milagre a quem? Conte-me, por favor.
            Chico Sabino coçou a barba, o bigode, a cabeça, o antebraço, o dorso da mão, e quando não tinha mais nada a coçar respondeu ao padre:
            – O senhor vai me escutar em confissão?
            – Claro! Prometo segredo de confessionário.
            – É o milagre do feijão! – respondeu Seu Chico.
            – Do feijão? – estranhou o padre.
            – Sim senhor! Eu sempre coloco feijões nos sapatos antes da caminhada.
­            – Mas disso todos nós sabemos, Seu Chico!
            – Pois então, padre!
            – Mas o que o senhor fez com esses feijões? Mandou benzê-los?
            – Num é feijão bento não, padre! É só cozido mesmo.
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*Conto selecionado para Antologia "Uberlândia 20 autores", livro distribuído gratuitamente pelo projeto Livro de Graça na Praça, em 06 de outubro de 2013.